
Prefácio:
Descartes de Souza Teixeira
A Edificação da Morada
A
paulistana Loja Maçônica Quintino Bocaiúva nº 10,
ostentando oitenta anos de vida e realizações, tem se destacada
por algumas características especiais. Uma delas, cada vez mais
evidente, é a valorização que atribui às tradições
maçônicas aliada à preservação cuidadosa
do seu próprio patrimônio histórico.
A edição da presente obra é uma demonstração
eloqüente dessa característica especial. Ela traduz o desejo
de, não só resgatar a narrativa histórica de um importante
patrimônio da Loja como o de organizar os respectivos registros e torná-los
disponíveis ao povo maçônico e a sociedade brasileira
no seu todo.
Os membros mais antigos da Loja resolveram recuperar documentos diversos
e ouvir depoimentos dos irmãos, detentores de relevantes informações,
sobre a história da Oficina, para narrar a saga que levou seus membros,
sempre unidos, a construir o belo Templo onde hoje se reúnem.
A história da construção do Templo da Quintino Bocaiúva,
em si mesma e conforme narrada neste livro, testemunha a dinâmica,
a perseverança e o destemor daqueles maçons da época,
francamente decididos a transformar um antigo sonho numa realidade concreta.
Planos, campanhas de arrecadação de fundos, pedidos de apoio,
gestão rigorosa dos modestos recursos amealhados, horas de dedicação
de muitos, penosas e audaciosas negociações com fornecedores
e trabalhadores da obra, tudo é apenas uma parte do esforço
de um grupo especial de homens, que podemos efetivamente chamar de “maçons
de fato”, para distingui-los daqueles que são apenas “maçons
especulativos”.
O leitor encontrará nas próximas páginas a história
da construção do Templo nos seus detalhes. A narrativa envolve
aqueles que, ainda hoje são ativos membros da Loja e tiveram papel
importante na realização de todo trabalho, embora não
esqueçamos de outros saudosos irmãos que laboraram também
e hoje cumprem outras tarefas no Oriente eterno.
Foram mais de oito anos de muito trabalho e luta, numa época em que
os irmãos, vivendo um período novo sob a jurisdição
da Grande Loja Maçônica do Estado de São Paulo após
desligamento do Grande Oriente de São Paulo em 1973 e tendo de ocupar
o Templo Loja “David Iampolsky” ainda sofriam as agruras de uma
aguda crise econômica que varria o país após a drástica
elevação dos preços internacionais do petróleo
e todas as conseqüências que trouxe ao Brasil na primeira metade
dos anos 70. Não era fácil se pensar em promover grandes investimentos
naquele ano de 1974, quando Paulo Ernesto Valin lançou o audacioso
plano de construção do Templo, em 22 de fevereiro. Os irmãos
não tiveram muitas dúvidas, e sob a liderança de Ayrton
Francisco Schneider, venerável mestre, aceitaram o desafio e aprovaram
a idéia em poucas semanas, em 8 de março de 1974.
Encabeçado por Antonio Carlos Cunha, venerável mestre, a Loja
resolveu lançar a pedra fundamental, no primeiro dia de maio de 1976,
daquela que viria a ser sua habitação definitiva. Parece que
o irmão Cunha estava prenunciando o que viria a ser o dia a dia dessa
grei daí para frente: nossas lutas constantes e limitações,
enfrentando todo o tipo de dificuldades, seria o caldo de cultura vivido
por nossa comunidade, mas foi assim que foram realizados os feitos mais expressivos
da história desta Oficina.
Na realidade, era uma nova experiência, agora bem real, do que todos
os maçons já haviam aprendido nos procedimentos iniciáticos
vividos. Nossas viagens, em direção às metas traçadas,
já,ais seriam feitas sem percalços, sem obstáculos ou
sem lutas. E assim foi durante toda a construção. Mas....chegaram
lá. A meta foi atingida.
Os veneráveis que seguiram a Antonio Carlos Cunha, prosseguiram com
igual vigor e entusiasmo o plano originalmente apresentado por Valin. Oswaldo
Russomano (1977/78), Aguenelo Martins Ferreira (1978/80), Augusto Madureira
Sobral (1980/81) e Paulo Ernesto Valin (1981/83) conduziram o plano como
se fosse um e somente um o verdadeiro comando. As administrações
mudavam mas a fidelidade ao plano original permanecia. Todos lutavam juntos
na mesma direção.
Não por coincidência, esse livro foi coordenado por Paulo Ernesto
Valin, venerável mestre da Oficina – responsável juntamente
com Antonio Carlos Cunha – pelas etapas finais de toda a construção – e
que foi quem no dia 02 de fevereiro de 1982 realizou a sagração
solene do novo e definitivo Templo. Os dois irmãos juntamente com
o dedicado irmão quintiniano Francisco Sanches respondem pela coordenação
do presente trabalho, que temos a honra de oferecer ao leitor.
Quem hoje freqüenta a ARBLS Quintino Bocaiúva nº 10 e, confortavelmente,
ocupa um espaço do seu Templo à Rua Catulo da Paixão
Cearense, 717 – Bosque da Saúde – São Paulo/SP,
não conseguira avaliar de fato, antes da leitura do presente trabalho
a natureza e real extensão do trabalho, volume de recursos, além
dos percalços encontrados, para erigir esse patrimônio, hoje
motivo de orgulho de todos os seus membros. São 600 metros quadrados
de área de terreno e 542 metros quadrados de área construída,
em 3 diferentes níveis, acomodando o Templo propriamente, Átrio,
Salas de Administração, Biblioteca, Sala de Estar, Salão
de Festas, Toaletes, Casa dos Caseiros além de uma garagem e um pequeno
jardim, tudo administrado e mantido com muito cuidado e esmero. Na base de
toda esta obra, estão os obreiros, como não poderia deixar
de ser. Mas, muito mais do que isso, estão maçons muitos especiais,
que prefiro aqui denominar de “maços de fato”, isto é,
aqueles que nunca se limitaram a falar e apenas refletir ou ocupar funções
mas a trabalhar para “fazer acontecer”.
A todos esses valorosos “quintinianos”, dedicado obreiros da
Arte Real, minhas homenagens muito especiais e, ouso dizer, representando
o pensamento de todos os demais 100 membros atuais da Loja, o reconhecimento
e gratidão pela excepcional obra realizada e zelosamente cuidada.
Este livro, avalio, é bem um demonstrativo da justeza e da oportunidade
das homenagens que devem ser prestadas aos nossos antecessores, que tudo
deram e tudo fizeram pela construção da nossa morada.
Descartes de Souza Teixeira VM 24/06/2003